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Prof.ª Cristina Gavina debate importância da comunicação entre médico e doente na obtenção de cuidados de saúde mais eficazes na 6th Educational Conference da ESC

«Por um lado, é preciso educar os doentes em termos de literacia em saúde; por outro, é preciso treinar os médicos no âmbito das soft skills, como a comunicação e a empatia. Só assim conseguiremos melhores e mais eficazes cuidados de saúde.» Prof.ª Cristina Gavina, presidente da Academia Cardiovascular da Sociedade Portuguesa de Cardiologia

Entre os dias 30 e 31 de janeiro decorreu em França a 6.ª Conferência Educacional da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), este ano subordinada ao tema Educated healthcare professionals + Educated patients = Effective shared care. Através do debate entre grupos de trabalho compostos por médicos e doentes, o encontro teve como objetivo discutir estratégias que contribuam para uma melhor relação entre classe médica e população, aspeto considerado essencial para a melhoria dos cuidados prestados e para a obtenção de melhores outcomes clínicos.

Divididos em três grandes áreas – educação dos profissionais de saúde, educação dos doentes e gestão de cuidados partilhados – os participantes procuraram dar resposta a questões relacionadas com: Como entender o que não sabe sobre seu doente e o tratamento ideal? Como preencher as lacunas nos seus conhecimentos, competências ou atitudes que irão beneficiar a gestão dos doentes? Como é que os doentes preferem aprender sobre sua condição, a fim de participar na prestação de cuidados ideais? Como deve o médico envolver os doentes nos cuidados para melhorar os resultados? Como assegurar que todos os cuidadores colaboram com os doentes para avançar nas metas de atendimento? Como compartilhar os planos de tratamento e informações com o doente e os seus cuidadores?

Em entrevista, a Prof.ª cristina Gavina explica as conclusões do encontro.

DISCURSO DIRETO | Prof.ª Cristina Gavina, presidente da Academia Cardiovascular

6.ª Conferência Educacional da Sociedade Europeia de Cardiologia foi dedicada à relação com os doentes. Quais os aspetos mais relevantes que estiveram em análise?

Este encontro foi dedicado ao debate sobre contextos que podem levar a classe médica a se distanciar dos seus doentes e que a impede de fazer, assim, um melhor trabalho. Portanto, todos os aspetos subordinados à relação médico/doente e às expectativas do doente estiveram no centro da reunião. O debate foi, por isso, em torno daquilo que poderá estar a falhar nesta relação e sobre a possibilidade de criar ferramentas e métodos que potenciem um encontro entre aquilo que são as expectativas do doente e a capacidade do médico enquanto emissor de conhecimento. Este debate foi estabelecido através da discussão organizada em pequenos grupos de trabalho com a participação de doentes reais com opiniões muito bem formadas em relação aquilo que deveria ser a relação médico/doente. Isso contribuiu para alargar a discussão no sentido de percebermos onde devemos melhorar para contribuir para a educação do doente.

Quais as conclusões a que chegaram?

Que esse caminho deve ser feito através de duas abordagens: a educação do doente, mas também a educação do médico. Ou seja, há, efetivamente, muita iliteracia em saúde, por isso, há necessidade de formarmos, por exemplo em termos de linguagem, os nossos doentes e de termos alguma informação fidedigna e de fácil compreensão (sites, brochuras, etc.). Na realidade, os doentes sentem, em diversas áreas, falhas de informação que não conseguem colmatar através da internet. Mas, há também necessidade de formar os profissionais de saúde em capacidades no âmbito das soft skills, ou seja, capacidade de comunicação e de empatia, áreas em que, os doentes que estiveram envolvidos nestes grupos de trabalho partilharam ter sentido uma maior lacuna.

Outro aspeto muito debatido neste encontro foi a possibilidade de, de alguma forma, avaliarmos a nossa prestação, ou seja, criarmos uma forma de avaliar a satisfação do doente para perceber se, na ação que temos com ele, fomos ou não eficazes na transmissão das mensagens. Na prática, criarmos uma check list a ser preenchida pelo doente.

De que forma essas conclusões poderão mudar a prática clínica e a própria formação da classe médica?

Na prática, chegou-se à conclusão que é necessário começar a incluir nos currículos tanto da formação pré-graduada, como na pós-graduada, competências de comunicação que permitam veicular a informação que se pretende de acordo com o tipo de doente que está à nossa frente, tendo em consideração o seu nível socioeconómico, a sua escolaridade, as expectativas, etc. É preciso saber ouvir o doente e dar-lhe tempo para processar a informação que estamos a passar. Claro que estes aspetos nos remetem para outra questão: a necessidade de termos mais tempo para fazer este trabalho, de modo a priorizarmos a comunicação em detrimento, por exemplo, dos registos. Os doentes sentem que ficam órfãos desta atenção.

Foram identificados aspetos concretos em que os doentes sentem essa dificuldade de comunicação?

Foi muito focada a questão de falarmos frequentemente em termos relativos, tanto a nível de percentagens, como de risco, isto é, conceitos que, para os médicos fazem todo o sentido, mas que para os doentes são um pouco abstratos. Muitas vezes, os doentes não entendem o que é o risco do procedimento e, quando estamos a falar de probabilidades, é difícil conseguirmos transmitir aquilo que o doente quer ouvir. Por exemplo, quando o médico diz “baixo risco”, o doente pode percecionar «nenhum risco» e isso não pode acontecer porque se ocorrerem complicações ele sentir-se-á defraudado nas suas expectativas. Curiosamente, este foi um aspeto que surgiu da situação de médicos que se viram em circunstâncias de doente e percecionaram essa dificuldade. Portanto, é imperativo conseguirmos trabalhar numa linguagem que seja clara para os dois lados e que permita que as decisões sejam tomadas de forma consciente e informada.

Falou-se também muito das classes menos privilegiadas, com menos acesso à saúde, e que poderão apresentar maiores dificuldades no entendimento daquilo que é a nossa comunicação. Isto significa que precisamos de trabalhar nesse sentido, até para criar empatia porque um dos aspetos que os doentes mais sentem é que no momento em que estão mais fragilizados precisam de ter do outro lado essa pessoa empática.

Outro aspeto abordado prendeu-se com a possibilidade de a Enfermagem substituir a classe médica no âmbito da educação do doente, a que os doentes se mostraram recetivos, embora ressalvando que a explicação dos procedimentos deveria ficar a cargo dos médicos.

Existem exemplos concretos deste processo, adotado por outros países?

Sim. Um desses exemplos é o caso dos países do norte da Europa, em que existem grupos de doentes que fazem apoio aos doentes, ou seja, pessoas que já passaram por determinadas patologias/procedimentos dão apoio a outros doentes que estão a passar pela mesma situação para tentar que pequenos pormenores possam ser acautelados através de perguntas que, habitualmente, eles não colocam aos médicos.

A implementação da componente comunicacional dos currículos passará por uma estratégia conjunta da Sociedade Europeia de Cardiologia ou ficará a cargo de cada país?

Concretamente, ficou definida a inclusão no currículo do cardiologista europeu uma secção sobre comunicação e soft skills, de modo a chamar a atenção para a necessidade de uma boa comunicação com os doentes e a nível local tentar encontrar o melhor modelo para implementar essa estratégia. Nesse sentido, um dos modelos que mais foi sugerido foi a existência de cenários em que pudesse ser treinada a comunicação com doentes difíceis, com contextos complicados. Até porque um dos comportamentos salientados negativamente pelos doentes é a postura paternalista do médico que indica ao doente qual o caminho que este vai seguir, não estando propriamente disponível para o ouvir. Assim, é importante ser mais disruptivo nesse sentido e conseguir, de uma forma sistematizada com treino pré e pós-graduado, estabelecer um novo modelo de comunicação.

A escolha deste tema vem comprovar que estamos perante uma mudança de paradigma no acompanhamento dos doentes?

Sem dúvida, até porque nós, cardiologistas, partilhamos com o doente a necessidade do seu envolvimento para o awareness da tutela relativamente a estas questões, nomeadamente o tempo de consulta e a prioridade da comunicação como chave para o sucesso. A adesão à terapêutica vai depender muito desta capacidade de comunicação e a tomada de decisão informada é essencial para que o doente não se sinta defraudado nas suas expectativas. Já chegámos muito longe na nossa capacidade de tratamento e até mesmo em termos de resultados, mas ainda há muito a fazer para conseguirmos chegar onde queremos e é aí que este tema é incontornável. Por isso é que é tão importante a presença dos doentes, por exemplo, na constituição das guidelines, na medida em que nos alertam para a relevância de outcomes que vão para além da saúde cardiovascular, como é o caso da qualidade de vida. Se os médicos conseguirem trabalhar com os doentes nesse sentido conseguiremos chegar muito mais longe.

 

Texto elaborado pelo Gabinete de Comunicação SPC (S Consulting)

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