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Registo Nacional de Síndromes Coronárias Agudas

15 anos de um registo prospetivo contínuo

Assinala-se em 2018 o 15.º aniversário de um dos mais longos registos clínicos em Portugal. O Registo Nacional de Síndromes Coronárias Agudas (SCA) deriva da dedicação e do trabalho de profissionais que, ao longo destes anos, contribuíram para a elaboração de um registo com esta dimensão e que conta hoje com mais de 59 107 doentes.

Através dos dados que este registo reúne, é-nos possível observar o perfil dos doentes coronários no nosso país: a maioria dos doentes são do sexo masculino (71%), com uma idade média de 66 anos; 44% dos casos correspondem a Enfarte com Elevação do Segmento ST (EMCST). É igualmente possível verificar uma redução acentuada a mortalidade intra-hospitalar, que era de 6,7% em 2002 e atualmente se situa nos 2,5%. Adicionalmente, os dados deste registo permitem analisar a evolução da prática clínica e do tratamento da doença coronária aguda.

Para explicar melhor o potencial do Registo Nacional de SCA e como podemos retirar dele dados importantes para a melhoria da saúde cardiovascular dos portugueses, a Prof.ª Ana Teresa Timóteo (Primeira autora) e a Dra. Sílvia Monteiro (Atual Coordenadora do Registo) falaram em entrevista sobre o projeto.

DISCURSO DIRETO | PROFª ANA TERESA TIMÓTEO

Este registo permite uma análise da evolução das modificações da apresentação, tratamento e resultados das síndromes coronária agudas em Portugal ao longo de 15 anos. Em que aspetos é que Portugal mais evoluiu?

Neste aspeto, pode dizer-se que o fator que mais se destaca é o aumento progressivo da utilização dos inibidores P2Y12. O mesmo se verifica com as estatinas, inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona e beta-bloqueantes, com aumentos de 30%, 26% e 22% desde 2002, respetivamente. Presentemente, 95% dos doentes recebem estatinas e cerca de 85% as outras duas classes de fármacos, em linha com a realidade de outros países.

Por outro lado, destaca-se igualmente a adesão global aos fármacos recomendados (dupla anti-agregação plaquetária, anticoagulantes parentéricos, estatinas, inibidores sistema renina-angiotensina-aldosterona e beta-bloqueantes) aumentou de 10% em 2002 para 60% nos últimos anos.

Relativamente ao tratamento do enfarte com elevação ST, saliento a transição ocorrida em 2007, quando a angioplastia primária começou a ultrapassar a fibrinólise, sendo presentemente este o tratamento de eleição em cerca de 95% dos doentes. Também a referenciação direta pelo INEM tem aumentado progressivamente, de 3% para 39%. Para o tratamento das restantes síndromes coronárias agudas, verificou-se também um aumento da utilização da estratégia invasiva, de 54% para 85%.

Verificaram-se, por último, melhorias muito significativas da mortalidade intra-hospitalar, nomeadamente com reduções de 6,7% para 2,5%, sendo esta melhoria mais evidente no grupo com enfarte do miocárdico com elevação de ST, nos quais as reduções foram de 9,8% para 3,4%.

Ao longo destes 15 anos, quais foram os principais obstáculos enfrentados?

No enfarte com supra ST, não se conseguiram melhorar substancialmente os tempos para reperfusão, apesar de todas as melhorias já referidas sobre a referenciação. O mesmo se verifica nas restantes síndromes coronárias agudas, com apenas 25% dos doentes a realizarem coronariografia em < 72 horas.

Do ponto de vista do funcionamento do registo, será necessário melhorar a taxa de doente com seguimento completo, que presentemente é insuficiente (inferior a 50%). Seria também desejável aumentar a participação dos centros, uma vez que ao longo do tempo, alguns centros deixaram de participar, outros começaram e alguns centros nunca participaram. Idealmente o registo deverá ser uma ferramenta que represente a realidade nacional e para isso deveria existir uma participação de todos os serviços de Cardiologia a nível nacional. Contudo, a participação requer recursos humanos e de tempo, o que em muitos hospitais pode ser difícil de conseguir. Julgo que a questão da criação de um registo oficial nacional obrigatório deveria ser ponderada, à semelhança do que já se verifica em outras patologias não cardiovasculares.

Finalmente, gostaria de agradecer a todos os centros que de forma voluntária têm participado no Registo Nacional Síndromes Coronárias Agudas. Sem eles não teria sido possível ter hoje esta base de dados extremamente poderosa, com quase cerca 60.000 registos incluídos e que nos permite analisar a nossa realidade. Todo este trabalho só foi possível graças à persistência e motivação dos vários investigadores. Espero que no futuro o registo se mantenha ativo e que se consiga uma maior participação de centros nacionais.

DISCURSO DIRETO | Dr.ª SÍLVIA MONTEIRO

Como surgiu o Registo Nacional SCA?

O Registo Nacional de Síndromas Coronárias Agudas, primeiro registo contínuo nesta área em Portugal, foi lançado em 2002, durante a presidência da SPC do Prof. Seabra Gomes, no âmbito do recém-criado Centro Nacional de Coleção de Dados em Cardiologia (CNCDC), e teve como primeiro coordenador o Dr. Jorge Ferreira. Este registo foi o sucessor natural do Registo Nacional de Enfarte Agudo do Miocárdio (EAM), realizado em 1999 sob a coordenação do Prof. João Morais e que durante 3 meses avaliou a epidemiologia e tratamento do EAM em 44 centros nacionais.

A criação deste registo resultou da necessidade de investigar e conhecer a população de doentes internados por SCA em Portugal, particularmente as suas características epidemiológicas e clínicas, abordagens de diagnóstico e tratamento, bem como avaliar o prognóstico a curto e longo prazo. Continuamente ativo desde a sua criação, graças à dedicação de dezenas de cardiologistas, a quem estamos todos muito agradecidos, o Registo Nacional de SCA pode dividir-se em duas fases: uma primeira que decorreu entre 2002 e 2010 (cerca de 31 000 doentes incluídos) e uma segunda fase, de Outubro de 2010 até aos nossos dias, que resultou da necessidade de atualização de algumas variáveis e redefinição de objetivos, de acordo com a evidência científica mais recente, que inclui atualmente cerca de 60 000 doentes.

Que vantagens é que o Registo Nacional SCA pode trazer para a evolução dos cuidados da área de Cardiologia?

A avaliação contínua dos indicadores de qualidade na abordagem do doente com SCA é fundamental para identificar os aspetos a melhorar e incentivar os profissionais de saúde a otimizar a sua performance.

Num país onde a disponibilidade e acessibilidade dos dados clínicos é habitualmente escassa, o Registo Nacional de SCA constitui uma referência e é hoje uma fonte de informação inesgotável para a promoção e aferição da qualidade dos cuidados de saúde prestados aos doentes internados com SCA.

Cada centro participante recebe periodicamente um relatório com os seus resultados clínicos, permitindo comparar os dados locais com os resultados nacionais do Registo Nacional de SCA, o que constitui uma ferramenta útil para a avaliação de desempenho e implementação de estratégias locais e regionais de otimização dos cuidados de saúde. Com efeito, desde a criação do nosso registo assistimos a uma melhoria relevante em diversas áreas do diagnóstico e tratamento das SCA, nomeadamente nos cuidados pré-hospitalares, na utilização de terapêutica de reperfusão e no tratamento dos fatores de risco cardiovasculares, com uma redução significativa da mortalidade intra-hospitalar e melhoria do prognóstico a médio prazo.

Por outro lado, as unidades coronárias e de cuidados intensivos cardíacos (UCIC) representam uma área relevante e privilegiada para a investigação clínica, tendo em conta o peso das doenças cardiovasculares na mortalidade e incapacidade dos portugueses. O elevado número de doentes incluídos no Registo Nacional de SCA, bem como a disponibilidade de inúmeras variáveis relacionadas com a apresentação clínica e tipologia das SCA, antecedentes, terapêutica e prognóstico permitem a realização de investigação clínica nacional de qualidade.

Felizmente temos assistido ao crescimento do número de trabalhos científicos realizados com base no Registo Nacional de SCA, com o apoio estatístico imprescindível do CNCDC, os quais têm sido apresentados em diversas reuniões científicas nacionais e internacionais e publicados nas melhores revistas da especialidade. Mais ainda, estes trabalhos de investigação têm ajudado a melhorar a qualidade da Cardiologia portuguesa, com os nossos jovens internos e cardiologistas a produzir e publicar ciência de alta qualidade e os nossos doentes a beneficiar de todo este conhecimento e da melhoria contínua da prática clínica no âmbito das SCA, que o registo nacional claramente influenciou.

Quais os principais desafios para o futuro?

A escassez de recursos humanos nas UCIC da maior parte dos serviços de cardiologia do nosso país condiciona uma sobrecarga de trabalho e dificulta a participação regular dos centros no Registo Nacional de SCA. Consciente desta realidade, a atual comissão coordenadora do registo está empenhada na procura de novos modelos e soluções. Queremos fazer mais e melhor ciência, tratar melhor os nossos doentes e reforçar a prevenção das doenças cardiovasculares. Estamos empenhados em manter e otimizar o espírito de colaboração demonstrado pelos centros participantes no Registo Nacional de SCA ao longo dos últimos 16 anos e assim inspirar e promover a excelência dos cuidados ao doente com SCA e a melhoria da saúde cardiovascular dos portugueses.

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