
“Saio de cabeça erguida!” É desta forma que o Prof. Doutor Manuel Antunes, Cardiologista e Professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, encara a jubilação. Após 46 anos de carreira, confessa ter tido uma vida profissional com momentos muito gratificantes, quer como médico, quer como professor, e mesmo como ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.
No dia 20 de julho, o Grande Auditório do Centro de Congressos do Hospital da Universidade de Coimbra acolheu, às 11h, “Uma Vida de Coração nas Mãos”, a sua última lição. Na cerimónia marcou presença também S. Exa. o Presidente da República, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa.
Para o futuro, deixa o desiderato de que os que continuam no ativo sigam esta senda de progresso para que os doentes tenham acesso a cuidados cada vez melhores e, simultaneamente, que se olhe para a área profilática como um campo indispensável e sempre associado à Medicina Cardiovascular.
O Prof. João Morais deixou, em nome da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, algumas palavras sobre o trabalho do Prof. Manuel Antunes, destacando e enaltecendo o contributo que deu para o desenvolvimento da cirurgia cardíaca em Portugal. “O Prof. Doutor Manuel Antunes foi um homem que fez imenso pela Cardiologia nacional e por isso com todo o mérito foi Presidente da nossa Sociedade. Para além de lhe desejar tudo de bom na sua vida pessoal e profissional, para a qual certamente ainda muito tem para dar , espero que continue a ser exatamente aquilo que hoje é, um profissional de grande rigor, sempre pautado pelos resultados de tudo o que faz, com o doente no centro das suas atençoes. ”, referiu.
DISCURSO DIRETO | PROF. MANUEL ANTUNES
O que o levou a enveredar pelo ensino?
Faz parte da Lei de Hipócrates, o pai da Medicina antiga, ensinar aquilo que aprendemos. A minha primeira via foi a Medicina e depois, dentro desta área, fui convidado para ensinar na Faculdade de Medicina, o sítio onde trabalhava e acabei por seguir uma carreira também no ensino.
Embora pertença aos quadros da Universidade de Coimbra, considero que a minha profissão é médico. Ser professor é uma atividade paralela.
Há algum marco da sua vida profissional académica que gostasse de partilhar?
Eu licenciei-me há quarenta e seis anos e, naturalmente, existem diversos marcos numa vida profissional longa. No entanto, consigo identificar dois momentos que me marcaram especialmente. O primeiro foi quando deixei Moçambique, onde vivia, para ir fazer um doutoramento na África do Sul, onde acabei por ficar devido à situação política que decorria no nosso país. O outro momento que mais marcou a minha vida profissional terá sido a minha vinda para Coimbra, local onde passei 30 dos 46 anos da minha carreira.
Do que é que acha que vai sentir mais falta?
Naturalmente, do contacto com os doentes. Esta vida intensa de trabalho, 12h por dia, entre a sala de operações e a enfermaria, vai ser aquela parte que mais falta me irá fazer.
Por força da Lei, vou retirar-me desta profissão no setor público, mas tentarei compensar esta lacuna com o mesmo tipo de atividade no setor privado. Sem a mesma intensidade, é certo…
Na sua opinião, o que prevê que possa ser a Medicina cardiovascular num futuro próximo?
A Medicina cardiovascular é umas das disciplinas que mais têm evoluído. A introdução da intervenção percutânea, sem necessidade de cirurgia, constituiu um marco na forma de tratar os doentes. Esta técnica foi progredindo com o tempo, tornando a Cardiologia e a Cirurgia, hoje consideradas duas disciplinas irmãs, quase uma só. Em grandes áreas da patologia cardíaca, esta relação vai intensificar-se muito mais.
Daqui a dez anos, aquilo que conheceremos será completamente diferente daquilo que conhecemos hoje, tal como acontece quando olhamos para as últimas duas décadas e comparamos com aquilo que atingimos no presente.










