SPC: acesso à saúde não é igual para todos

O mês de abril é marcado pelo Dia Mundial da Saúde, que se celebra no dia 7. Este ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) dedica este dia ao conceito “Saúde para Todos”, ao qual a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) se junta, relembrando as “iniquidades no acesso à saúde”.

A cobertura universal de cuidados de saúde pressupõe que todos têm o direito a serviços de saúde, com qualidade e sempre que estes forem necessários, sem que isso implique que o doente ou a família passem por dificuldades financeiras. Na realidade, de acordo com a SPC, “estamos longe de atingir este objetivo, com milhões de pessoas em todo o mundo que, apesar das manifestações de doença cardiovascular, não têm acesso a qualquer tipo de cuidado”.

Porém, “não é apenas em países subdesenvolvidos que o acesso à saúde se mostra um problema; no Portugal envelhecido do século XXI, há ainda quem viva em regiões sem serviços médicos – sobretudo idosos, que constituem precisamente a população mais afetada por este tipo de patologia – e sem meios para se deslocar”, acrescenta.

Para quem sofre de alguma doença de natureza cardio ou cerebrovascular, esta questão é especialmente grave no sentido em que, para além de não haver o acompanhamento adequado, estas pessoas não possuem muitas vezes condições financeiras para fazer a terapêutica prescrita ou reabilitação. “Um dos objetivos do Programa Nacional Para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares para o ano de 2020, é precisamente alargar o número de pessoas a nível nacional com acesso à reabilitação pós-AVC (Acidente Vascular Cerebral) para 1.800 por ano”, revelou a SPC.

Recentemente, o estudo ATLAS propôs-se a comparar os gastos e o peso que o acesso à saúde representa nos países membros da Sociedade Europeia de Cardiologia, bem como o acesso aos serviços e cuidados básicos do ponto de vista cardiovascular. No ano de 2013 foram gastos em Portugal aproximadamente 2.000 euros por pessoa só em saúde, realidade que contrasta com países como a Síria, que foi aquele onde menos dinheiro foi despendido, ou como o Luxemburgo, onde se gastou mais dinheiro nesta área. Estes dados vêm, assim, evidenciar as disparidades e lacunas existentes nos sistemas de saúde destes países, permitindo avaliar de que forma a gestão dos fatores de risco e a incidência das doenças cardiovasculares são abordadas.

Através da análise deste estudo, é possível também concluir que há disparidades significativas entre nações com diferentes rendimentos médios, quer no que diz respeito à prevalência de fumadores e hipertensos – mais elevada nos países onde o rendimento é menor –, quer na redução da taxa de mortalidade por doença cardiovascular, que tem tido valores muito positivos na Europa, contrastando com os restantes países, onde esta diminuição não é tão evidente.

Portugal encontra-se colocado no grupo de países onde há uma menor mortalidade por doenças cardiovasculares, mas esta tendência é contrariada no caso do AVC, que atira os portugueses para o grupo com maior taxa de mortalidade devida a esta patologia. Para isto contribuem fatores como os índices de obesidade, de inatividade física e de prevalência de diabetes em Portugal, que são dos mais elevados.

Para o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, “a saúde é um direito humano. Ninguém deve ficar doente ou morrer apenas porque não tem acesso aos serviços de que necessita”.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, João Morais, lamenta, contudo, que esta realidade não seja ainda possível, pois “pelo menos metade da população do mundo encontra-se sem acesso a qualquer tipo de cuidados, ou forçada a escolher entre uma deslocação a um serviço de saúde e outra qualquer necessidade básica. Esta é uma situação por que ninguém deveria passar!”.