Portugal volta a ser anfitrião do EuroPrevent

Entre os dias 11 e 13 de abril deste ano, Lisboa vai ser palco do maior congresso europeu de Cardiologia Preventiva.

«Particularmente para nós, portugueses, um momento que terá grande significado será a sessão dedicada ao EUROASPIRE V, estudo europeu que engloba vários países da Europa, desenvolvido desde há vários anos pelo grupo do Prof. David Wood e da Prof.ª Kornelia Kotseva, do Imperial College of London. Portugal esteve envolvido nos dois últimos estudos, EUROASPIRE IV e V, sendo que os resultados deste último serão apresentados e discutidos durante este congresso. Nesta sessão, teremos a oportunidade de apresentar os dados nacionais, o que nos permitirá avaliar os resultados da implementação, em doentes coronários e em indivíduos com alto risco coronário, de medidas de prevenção cardiovascular, indicadas nas últimas guidelines europeias, permitindo a comparação com os dos restantes países envolvidos.» Prof.ª Ana Abreu.

A Associação Europeia de Cardiologia Preventiva, ramo da Sociedade Europeia de Cardiologia com a colaboração local da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, leva a cabo o congresso que reúne reconhecidos especialistas mundiais, que partilharão os seus conhecimentos e experiência nas áreas da Prevenção e Reabilitação Cardiovascular, Cardiologia Desportiva e Exercício, entre outras, no âmbito clínico e no das ciências básicas.

O EuroPrevent é o congresso anual da Associação Europeia de Cardiologia Preventiva onde, durante três dias, cardiologistas e outros profissionais de saúde, como enfermeiros, fisioterapeutas, fisiologistas de exercício e investigadores têm a oportunidade de participar em sessões científicas e cursos que abrangem o espectro da prevenção cardiovascular, reabilitação, exercício e cardiologia desportiva. Com cerca de 1400 participantes de mais de 50 países, 60 sessões científicas, 800 comunicações e casos clínicos submetidos e 165 palestrantes e moderadores, este é o maior congresso europeu de Cardiologia Preventiva.

Em entrevista, a Prof.ª Ana Abreu, uma das anfitriãs nacionais do evento, avança alguns dos principais temas que estarão em destaque.

 

DISCURSO DIRETO | Prof.ª Ana Abreu

 

Quais os hot topics que serão abordados neste evento?

Teremos dois cursos exaustivos fundamentais (master classes): um dedicado à diabetes e risco cardiovascular e outro dirigido à prevenção do acidente vascular cerebral.

Decorrem no congresso quatro sessões conjuntas com outras sociedades/associações, permitindo a interação científica internacional: Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Associação Brasileira de Ergometria, Sociedade Japonesa de Reabilitação Cardíaca e Grupo de Prevenção e Reabilitação cardiovascular da Arábia Saudita.

Teremos simpósios em diferentes áreas de interesse, passando pela redução de risco cardiovascular das corridas de endurance (Boston Marathon lessons), tratamento de doentes de alto risco cardiovascular baseado nas guidelines europeias, papel do exercício na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, interação coração-cérebro, mecanismos da inflamação na aterosclerose e papel dos ácidos gordos ómega 3 e dos inibidores PCSK9 na prevenção e tratamento da doença cardiovascular.

Particularmente para nós, portugueses, um momento que terá grande significado será a sessão dedicada ao EUROASPIRE V, estudo europeu que engloba vários países da Europa, desenvolvido desde há vários anos pelo grupo do Prof. David Wood e da Prof.ª Kornelia Kotseva, do Imperial College of London. Portugal esteve envolvido nos dois últimos estudos, EUROASPIRE IV e V, sendo que os resultados deste último serão apresentados e discutidos durante este congresso. Nesta sessão, teremos a oportunidade de apresentar os dados nacionais, o que nos permitirá avaliar os resultados da implementação, em doentes coronários e em indivíduos com alto risco coronário, de medidas de prevenção cardiovascular, indicadas nas últimas guidelines europeias, permitindo a comparação com os dos restantes países envolvidos.

 

O que nos pode adiantar sobre os resultados nacionais?

À semelhança do panorama europeu, não são muito animadores. Em termos gerais e no seguimento do que já tinha sido verificado no EUROASPIRE IV, constatámos que ainda estamos longe de conseguir bons resultados de acordo com os objetivos das recomendações europeias. Neste contexto, é necessária a implementação de muitas estratégias e é nesse âmbito que se insere a reunião do Advocacy Commitee, envolvendo políticos da área da Saúde do país que acolhe o evento, o que também terá lugar neste encontro. Esta reunião terá como objetivo delinear estratégias com políticos de saúde nacionais em relação a alguns tópicos importantes da prevenção cardiovascular. Por exemplo, este ano estamos muito focados na questão da nutrição e do sedentarismo e, para isso, temos de envolver não só profissionais de saúde, como a comunidade política. Portugal, juntamente com a Alemanha e com a Eslovénia, terá de apresentar nos próximos três anos algumas propostas de estratégias preventivas, no sentido de perceber o que se pode fazer para os profissionais de saúde aderirem a estas recomendações e, também, para alcançar esse objetivo junto dos doentes.

 

Que outros aspetos gostaria de destacar?

Destacaria uma sessão de avaliação dos doentes cardíacos por técnicas, nomeadamente de imagem, prévia à entrada em programa de reabilitação cardíaca e apresentações várias no âmbito da Cardiologia Desportiva, uma área que, por vezes, os cardiologistas desconhecem devido ao envolvimento de outro tipo de profissionais, e que engloba o exercício no atleta, o efeito do exercício de competição na função cardíaca e as arritmias e a morte súbita no desportista.

Haverá ainda uma série de atividades paralelas às sessões científicas em que será incluída música e arte, ligada ao movimento e ao relaxamento, como é o caso do ioga, dança e música portuguesa. No último dia, teremos um evento público organizado em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, que será uma surpresa quanto ao tipo de atividade física, uma vez que não será a habitual corrida ou caminhada.

À semelhança dos anos anteriores, haverá também uma entrega de prémios para os melhores investigadores.

 

Em que se traduzirá a participação portuguesa neste encontro?

Este congresso contará com uma significativa participação portuguesa no âmbito das apresentações e sessões científicas, com diversos trabalhos de qualidade de jovens cardiologistas nacionais e com muitos cardiologistas portugueses como oradores e moderadores. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia foi convidada a estar presente e o seu presidente, o Prof. João Morais, marcará presença na sessão de abertura do congresso. Teremos também uma sessão em conjunto com o Grupo de Estudo de Fisiopatologia de Esforço e Reabilitação Cardíaca da SPC, cujo moderador será o coordenador nacional, o Dr. José Paulo Fontes.

 

Quais são as suas expectativas para este congresso?

Que tenhamos mais jovens a participar. A Associação Europeia de Cardiologia Preventiva tem um grupo, EAPC Young Community, composto por médicos, fisiologistas do exercício, enfermeiros e muitos outros profissionais ligado a esta área, com menos de 30 anos, que estão muito ativos - página de Facebook deste grupo recém-lançada – e que nos podem ajudar a fazer a divulgação de conhecimentos junto das comunidades mais jovens. Isto é particularmente interessante porque, há alguns anos, a Cardiologia Preventiva era do interesse dos cardiologistas seniores e, hoje em dia, existem inúmeras áreas de interesse para os mais jovens, tanto na parte clínica, como de investigação.

 

Haverá ainda uma iniciativa que já foi testada noutros eventos, o Career Cafe, que corresponde a um encontro, durante os coffee-breaks, com especialistas europeus das várias áreas, anunciados previamente, para o qual os jovens se podem inscrever, apresentando o seu currículo, explicando os seus interesses e o que gostariam de fazer e pedindo sugestões, nomeadamente indicações para estágios que desejam efetuar. Já realizámos esta iniciativa em três eventos e é sempre muito bem recebida, com muitas inscrições.

 

Espera-se a apresentação de novidades nesta área?

Existem novas linhas de investigação interessantes. Se os resultados dos grandes estudos acabarem por dar origem a novos estudos, estes poderão apresentar caminhos diferentes, nomeadamente no que diz respeito a tipos de protocolos de exercício cardiovascular para doentes com insuficiência cardíaca ou doença coronária. Estes novos modelos permitirão diferentes linhas de atuação, por exemplo em relação ao efeito sobre a função, a massa e a remodelagem cardíacas.

Outro aspeto muito relevante é a adesão a este tipo de medidas preventivas. É sabido que existem problemas de adesão a estes programas de exercício e reabilitação, mas é igualmente importante focar a duração dos mesmos. Neste contexto, temos o impacto da telemedicina e de todas as novas ferramentas digitais, um aspeto de grande inovação nesta área, e que também merecerá destaque neste congresso.

 

 

 

 

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