Registo Nacional de Cirurgia Cardíaca já está em funcionamento

«Está comprovado que, quando existem registos e quando os centros sabem os seus resultados, isso permite identificar as suas fragilidades e pontos fortes. Além disso, quando há monitorização, os resultados acabam por melhorar. Da maneira como estes registos estão organizados, isso vai-nos permitir tirar uma fotografia da realidade nacional e cada centro será capaz de comparar a sua realidade com o panorama nacional.» Prof. Adelino Leite-Moreira

Com a participação dos sete centros públicos e sob a coordenação do Prof. Adelino Leite-Moreira, o Registo Nacional de Cirurgia Cardíaca está a funcionar desde o início do ano. Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Cirurgia Cardiotoracica e Vascular (SPCCTV) e integrado no Centro Nacional de Coleção de Dados em Cardiologia (CNCDC) da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), este registo irá incluir características clínicas pré-operatórias dos doentes e da sua patologia, dados relativos à própria cirurgia e resultados do pós-operatório imediato.

Com uma história um pouco atribulada, o Registo Nacional de Cirurgia Cardíaca chegou a ser implementado há alguns anos, mas devido a dificuldades logísticas, e até de financiamento, não tem tido uma existência estável. Felizmente, voltaram a ser dados passos sólidos para que o Registo se torne uma realidade e possa arrancar de modo consistente.

Sob a coordenação do Prof. Adelino Leite-Moreira, os centros públicos foram convidados a participar e alguns estão já a conseguir importar os seus dados locais para a base de dados nacional. Numa segunda fase, serão também incluídos os centros privados. Os dados recolhidos foram definidos com base no registo europeu. Presentemente estão confirmadas as participações dos seguintes hospitais: Centro Hospitalar de São João, Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Centro Hospitalar de Lisboa Central, Centro Hospitalar Lisboa Norte, Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental e Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira.

Para melhor perceber o potencial deste registo, o Prof. Adelino Leite-Moreira concedeu a seguinte entrevista:

 

DISCURSO DIRETO | Prof. Adelino Leite-Moreira, coordenador do Registo de Cirurgia Cardíaca

 

Qual a importância do Registo Nacional de Cirurgia Cardíaca?

A importância dos registos, seja na cirurgia cardíaca ou noutra área, é amplamente conhecida. São fundamentais para que tenhamos perceção daquilo que estamos a fazer e possamos avaliar os nossos potenciais resultados e compararmo-nos com o que o que está a ser feito a nível nacional e internacional.

Os registos em cirurgia cardíaca têm tido algumas dificuldades, em parte porque exigem um nível organizacional importante, assim como a disponibilização de recursos humanos para criá-los e alimentá-los. A cirurgia cardíaca, de uma forma muito especial, tem uma carga laboral intensa e uma falha crónica de alguns recursos humanos, o que torna estes registos, a serem efetuados pelos próprios cirurgiões, sem apoio administrativo específico nesta área, difíceis de realizar. Esta é apenas uma das causas que levou a dificuldades no passado. A verdade é que o registo chegou a estar implementado há cerca de 15/20 anos, sediado na SPCCTV, mas, devido a estas dificuldades logísticas e até de financiamento, tem tido alguns sobressaltos.

 

Que passos foram dados para se conseguir pô-lo em prática agora?

Mais recentemente, as duas últimas direções da SPCCTV e a atual têm estado empenhadas em retomar esta iniciativa e começaram, conjuntamente com a SPC, que implementou com sucesso registos noutras áreas, a adotar estratégias importantes nesse sentido. Para alguns desafios foram encontradas soluções, para outros ainda não, mas decidimos que estava na hora de avançar de uma forma pragmática com aquilo que fosse possível. Ou seja, mesmo que não tenhamos acesso a um registo exaustivo, com um cruzamento perfeito de todas as outras bases de dados, teremos pelo menos uma perspetiva, ainda que mais limitada quanto ao número de variáveis a incluir, o que é sempre desejável e preferível face à existência de nenhuma.

 

Que dados serão contemplados neste registo?

No caso concreto da cirurgia cardíaca, acabámos por decidir incluir variáveis que, na sua maioria, são oriundas de um registo europeu que se centra, fundamentalmente, em características clínicas pré-operatórias dos doentes e da sua patologia, dados relativos à própria cirurgia e resultados do pós-operatório imediato. Por exemplo: aspetos sobre a natureza da doença, a existência de fatores de risco, as características imagiológicas do doente, a gravidade da doença coronária, a natureza da lesão valvular que o doente apresenta, e aspetos intraoperatórios, como a natureza do procedimento (se a válvula foi reparada ou se foi substituída, sendo substituída, se foi uma prótese biológica ou mecânica, o número de bypass que o doente fez, se a cirurgia foi feito com ou sem apoio de circulação extracorporal, possíveis complicações que surgiram), e pós-operatório imediato (nomeadamente se houve ou não alguma complicação, infeção, etc.).

 

De que forma este registo ajudará a ter uma melhor perceção da realidade nacional?

Através destas informações é possível ter uma perceção dos resultados a curto prazo e relacioná-los com as características dos doentes. Naturalmente, isto tem uma relevância importante para termos noção se, eventualmente, há alguns aspetos que devem ser revistos. A longo prazo, pretende-se fazer o cruzamento desta base de dados com a do registo nacional de óbitos para percebermos, mesmo se não tivermos consultas de seguimento a médio/longo prazo com estes doentes, quais os que estão vivos.

Alguns centros de cirurgia cardíaca já tinham registos locais, uns parciais, outros globais. A ideia é uniformizar esses dados a nível nacional e tentar que todos participem. Há centros que já estão a conseguir migrar dados para o registo nacional, mas outros estão um pouco mais atrasados.

 

Este registo poderá contribuir para otimizar comportamentos?

Isso está bem estudado a nível mundial e não é exclusivo da cirurgia cardíaca. Está comprovado que, quando existem registos e quando os centros sabem os seus resultados, isso permite identificar as suas fragilidades e pontos fortes. Além disso, quando há monitorização, os resultados acabam por melhorar. Da maneira como estes registos estão organizados, isso vai-nos permitir tirar uma fotografia da realidade nacional e cada centro será capaz de comparar a sua realidade com o panorama nacional. Por outro lado, os registos são matéria-prima para investigação académica e produção de conhecimentos.

 

Texto elaborado pelo Gabinete de Comunicação SPC (S Consulting)

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