SAVIC Consultório - Sistematização de abordagem ao doente com insuficiência cardíaca crónica

Parceria luso-brasileira promove formação a cardiologistas

«A grande mais-valia do SAVIC e do SAVIC Consultório é a sistematização de abordagem ao doente, o que não se encontra facilmente nos livros, nem nas guidelines», Prof. Rui Baptista, coordenador dos cursos SAVIC.

«O tratamento da insuficiência cardíaca é relativamente complexo e as diretrizes são muito teóricas e pouco práticas. Este curso sistematiza o atendimento destes doentes, ou seja, quando alguém termina esta formação está apto a colocar esses conhecimentos em prática imediatamente.» Dr. António Barreto, um dos coordenadores do curso SAVIC Consultório.

No passado dia 1 de fevereiro, na Casa do Coração, diversos cardiologistas portugueses participaram primeiro curso Suporte Avançado de Vida em Insuficiência Cardíaca (SAVIC) Consultório em Portugal , uma iniciativa criada por três especialistas brasileiros que tem como objetivo contribuir para uma melhor esquematização do seguimento dos doentes com insuficiência cardíaca (IC) crónica. À semelhança do curso SAVIC, que consiste num curso prático, imersivo, no qual os candidatos são conduzidos pelos formadores através de cenários de casos clínicos que ocorrem com frequência na prática clínica diária, ao longo das várias fases do internamento dos doentes com insuficiência cardíaca aguda, o SAVIC Consultório baseou-se numa formação prática de acompanhamento destes doentes em ambiente de consulta.

Estruturado em dois momentos, o curso dividiu-se numa primeira fase de formação dos formadores portugueses e noutra em que esses mesmos formadores puseram em prática os ensinamentos adquiridos dando formação a 30 internos nacionais de Medicina Interna e Cardiologia. A formação teve início com um teste pré-curso e terminou com outro período de avaliação, no qual os formandos tiveram oportunidade de demonstrar os conhecimentos adquiridos.

Da autoria dos cardiologistas brasileiros Dr. Múcio Oliveira, Dr. Manuel Canesim e Dr. António Barreto, o curso tem como objetivo uniformizar a prestação de cuidados aos doentes com IC, não só na fase de diagnóstico e estabilização, mas também no seguimento, proporcionando objetivos concretos a ser alcançados, nomeadamente, a redução da frequência cardíaca e a regressão da dilatação do coração, as duas principais características de IC.

Para melhor esclarecer a importância desta formação, segue-se entrevista com o Prof. Rui Baptista e com o Dr. António Barreto.

 

DISCURSO DIRETO | Prof. Rui Baptista

 

Como surgiu esta parceria?

O SAVIC é um projeto já com alguns anos na SPC e resulta de uma colaboração luso-brasileira de cardiologistas do Estado de São Paulo que desenvolveram um programa de formação de ensino ativo em IC aguda. A SPC tem vindo a implementar esta formação com grande sucesso - já realizámos cerca de 30 cursos envolvendo mais de 500 médicos -, mas sabíamos que os nossos colegas brasileiros tinham um outro produto, o SAVIC Consultório, que, ao contrário do SAVIC, que é essencialmente focado no tratamento do doente agudo durante o seu internamento e estabilização no hospital, é dedicado ao acompanhamento do doente com IC crónica. Portanto, foi com grande interesse que abraçámos a oferta formativa dos nossos colegas que prontamente se disponibilizaram a fornecer-nos os conteúdos pedagógicos desta formação. Assim, esta reunião teve como objetivo a formação de formadores portugueses para que possamos implementar este novo curso no nosso país. Foi uma reunião bem-sucedida a vários níveis.

Em termos práticos, como funcionou esta formação?

Foram feitos dois cursos. Num, os formadores brasileiros lecionaram o curso aos formadores portugueses; no outro, os formadores portugueses convidaram 30 internos de Medicina Interna e Cardiologia para serem os primeiros formandos, com a observação dos formadores brasileiros.

O que podemos aprender da experiência brasileira?

A grande mais-valia do SAVIC e do SAVIC Consultório é a sistematização da abordagem ao doente que não se encontra facilmente nos livros, nem nas guidelines. Assim, o grande benefício destes cursos é a sistematização muito focada na prática clínica do dia a dia para a abordagem a estes doentes através de um algoritmo.

O que pode ser melhorado na realidade portuguesa nesta fase de atendimento aos doentes?

Tanto o SAVIC, como o SAVIC Consultório são dois produtos que se adaptam perfeitamente ao que necessitamos para dar resposta ao doente com IC aguda e crónica. O fornecimento de uma base estruturada, acompanhada de um manual de texto que pode ser estudado, é de elevado interesse, na medida em que coloca todos os profissionais médicos a «falarem a mesma língua». O que temos tentado fazer com este SAVIC é que haja uma linguagem universal de abordagem aos doentes com IC no nosso país, para que seja mais fácil, produtivo e homogéneo o atendimento a estes doentes.

Quais são, então, as grandes diretivas de sistematização de atendimento a estes casos?

O SAVIC Consultório utiliza uma metodologia baseada em três etapas de abordagem ao doente com IC crónica denominada DIS – Diagnóstico, Intervenção e Seguimento. Portanto, tem de haver uma abordagem inicial de diagnóstico de IC, tanto etiológico, como hidrolático e de comorbilidades; a etapa de intervenção deve ser clarificada de forma muito lógica do ponto de vista não-farmacológico, farmacológico, sobre potenciais fatores e sobre as comorbilidades; por fim, e talvez a etapa mais importante e que se encontra menos bem sistematizada nos livros de texto e nas guidelines, é o seguimento. Habitualmente, o seguimento de IC é muito baseado na melhoria dos sintomas e na utilização dos fármacos e o SAVIC Consultório visa estabelecer o atingimento de determinados objetivos importantes tanto para o médico, como para o doente, porque têm valor prognóstico, sejam eles a normalização dos sintomas, a obtenção de remodelagem reversa ventricular esquerda ou a obtenção de uma frequência cardíaca abaixo de 58 pulsações por minuto, no sentido de dar objetivos concretos aos médicos, à semelhança do que acontece com o LDL.

 

DISCURSO DIRETO | Dr. António Carlos Pereira Barreto

 

Como surgiu esta parceria?

Esta parceria surgiu há 6 anos, com o Prof. Silva Cardoso. Oferecemos à SPC a possibilidade de realizar esta formação em Portugal porque queríamos internacionalizar o projeto. A ideia foi muito bem aceite e implementada. Nós oferecemos todo o material que, posteriormente, reunimos num livro. Hoje em dia, a SPC é um exemplo de como fazer estes cursos. Entretanto, já chegámos também aos Estados Unidos, onde temos tentado desenvolver uma forma de avaliar a forma como o curso muda o atendimento destes doentes.

Quais os ensinamentos que os cardiologistas portugueses podem aprender do exemplo brasileiro?

É interessante porque, devido a alguns conflitos institucionais, nunca conseguimos que o SAVIC se tornasse um curso oficial da Sociedade Brasileira de Cardiologia, mas antes uma formação oficial da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. De Portugal podemos aprender esse exemplo de a SPC ter adotado esta iniciativa e tê-la tornado um projeto oficial seu. Pelo contrário, Portugal pode aprender com o Brasil o interesse que os cardiologistas têm manifestado em fazer este curso, nomeadamente nos congressos. Atualmente, o SAVIC é feito mensalmente no Estado de São Paulo, e inclui inscrições de todo o país, para além de ser realizado no congresso de insuficiência cardíaca e, por vezes, no congresso brasileiro de Cardiologia.

Quantas pessoas já frequentaram este curso?

Cerca de 10 mil pessoas, distribuídas pelos vários centros que existem no Estado de São Paulo, ao longo destes dez anos.

O que motivou a criação deste curso?

O tratamento da insuficiência cardíaca é relativamente complexo e as diretrizes são muito teóricas e pouco práticas. Este curso sistematiza o atendimento destes doentes, ou seja, quando alguém termina esta formação está apto a colocar esses conhecimentos em prática imediatamente. Desta forma, este curso torna-se muito apelativo.

Esta edição foi dedicada ao SAVIC Consultório. Que especificidades foram abordadas?

O SAVIC agudo está dirigido ao acompanhamento do doente quando chega ao Serviço de Urgência de um hospital, no sentido de ensinar a estabilizá-lo. Já o SAVIC Consultório centra-se na orientação do médico durante a visualização dos doentes em consulta, situação que representa a maior parte dos casos de insuficiência cardíaca. Assim, pretende fornecer ensinamentos sobre como acompanhar estes doentes crónicos.

Em termos práticos, em que se traduz esse acompanhamento?

No SAVIC Consultório trabalha-se muito com algoritmos de orientação de tratamento, nomeadamente o DIS – Diagnóstico, Intervenção e Seguimento. E é a parte do seguimento que distingue este curso de todos os outros porque uma das nossas grandes preocupações é discutir sobre como saber se o doente está bem tratado. Na verdade, ao contrário do que acontece com outras patologias, com a insuficiência cardíaca não há metas concretas a atingir e as melhorias clínicas são muito subjetivas. Assim, no SAVIC Consultório estamos a propor dois elementos que devem ser investigados para termos a certeza de que o tratamento está a ser adequado: frequência cardíaca baixa e regressão da dilatação do coração. É este o elemento diferenciador do SAVIC – obriga o médico a procurar saber se o tratamento está a ser eficaz e isso contribui substancialmente para a melhoria do tratamento.

 

Texto elaborado pelo Gabinete de Comunicação SPC (S Consulting)

Outras Notícias
Artigos Revista SPC